Acupuntura funciona para dor crônica?

O que a ciência contemporânea realmente mostra

Durante muitos anos, os benefícios da acupuntura foram atribuídos apenas ao efeito placebo. No entanto, pesquisas robustas das últimas décadas vêm demonstrando que essa explicação é insuficiente para justificar seus resultados, especialmente no tratamento da dor crônica. Uma publicação do The Washington Post, escrita pela médica Trisha Pasricha em julho de 2023, revisa evidências científicas consistentes que mostram a superioridade da acupuntura em relação à acupuntura falsa e à ausência de tratamento em diversas condições dolorosas. Este artigo apresenta uma leitura crítica desses dados, destacando os achados clínicos, neurobiológicos e as implicações práticas para o cuidado em saúde.

Durante muito tempo, críticos afirmaram que os benefícios da acupuntura seriam explicados apenas por placebo. Essa ideia ainda persiste em parte do público. No entanto, ensaios clínicos e revisões sistemáticas vêm demonstrando que a acupuntura apresenta efeitos específicos, mensuráveis e duradouros para determinadas condições, especialmente dores crônicas.

Os resultados são considerados tão consistentes que, em 2020, os Centros de Serviços Medicare e Medicaid dos Estados Unidos passaram a cobrir o tratamento com acupuntura para lombalgia crônica. Além disso, estudos sugerem benefícios em outras condições, como dor cervical, osteoartrite, cefaleia, dor no ombro, constipação e doença pulmonar obstrutiva crônica.

Acupuntura real × acupuntura falsa

Para avaliar se a acupuntura realmente funciona, pesquisadores a compararam com a chamada acupuntura falsa. Nesse modelo, as agulhas são inseridas fora dos acupontos reconhecidos, sem intenção terapêutica específica.

Embora esse desenho não seja totalmente duplo-cego — já que o acupunturista sabe quando está aplicando a técnica falsa —, para o paciente a experiência é praticamente idêntica. Se os efeitos fossem exclusivamente placebo, os resultados entre acupuntura real e falsa seriam equivalentes.

Em muitos casos, não são.

Uma meta-análise publicada em 2018, envolvendo mais de 20 mil pacientes em 39 ensaios clínicos randomizados de alta qualidade, demonstrou que a acupuntura foi superior tanto à acupuntura falsa quanto à ausência de tratamento em condições como:

  • Dor lombar e cervical
  • Osteoartrite
  • Cefaleia
  • Dor no ombro

Mais relevante ainda: os benefícios persistiram ao longo do tempo, sendo observados mesmo 12 meses após o tratamento.

Esses dados reforçam que a acupuntura não pode ser explicada apenas por efeito placebo.

Limites e indicações reais

Apesar dos resultados positivos, a acupuntura não é uma solução universal. Assim como qualquer intervenção terapêutica, ela pode não ser a melhor escolha para todos os quadros clínicos.

É necessário o uso criterioso e baseado em evidências, e não a aplicação indiscriminada da técnica.

A ciência por trás da acupuntura

Uma das principais críticas à acupuntura sempre foi a dificuldade de explicá-la sob a ótica da medicina ocidental. Nos últimos anos, essa lacuna vem sendo progressivamente preenchida — e o foco principal é o sistema nervoso central.

Pesquisas conduzidas por Richard Harris, professor e presidente do Instituto de Saúde Integrativa da Universidade da Califórnia, demonstraram que:

  • A acupuntura real, mas não a falsa, altera a atividade cerebral;
  • Há ativação de receptores opioides, envolvidos no controle da dor;
  • A eletroacupuntura modifica a conectividade entre diferentes áreas cerebrais, remodelando redes neurais relacionadas à dor crônica.

Esses achados indicam que a acupuntura atua modulando circuitos cerebrais, e não apenas produzindo uma resposta subjetiva.

Ação local e ação sistêmica

Um estudo de 2017 com pacientes com síndrome do túnel do carpo trouxe um dado particularmente interessante: a eletroacupuntura aplicada no tornozelo contralateral foi tão eficaz quanto a aplicada diretamente no punho afetado.

Além da melhora clínica, observou-se:

  • Melhora objetiva na condução do nervo mediano;
  • Ausência desses efeitos no grupo de acupuntura falsa.

Exames de ressonância magnética funcional mostraram que tanto o estímulo no punho quanto no tornozelo alteraram o mapeamento sensorial no córtex cerebral, sugerindo que a acupuntura pode agir:

  • Localmente
  • À distância
  • Por meio da reorganização central do processamento da dor

O que são os pontos de acupuntura?

A Organização Mundial da Saúde reconhece 361 acupontos padronizados no corpo humano. Esses pontos respondem a diferentes tipos de estímulo, como pressão, calor e eletricidade.

Estudos indicam que os acupontos apresentam:

  • Alta densidade de terminações nervosas
  • Maior concentração de mastócitos

A estimulação dessas áreas pode desencadear a liberação de substâncias químicas e hormonais, influenciando o sistema nervoso e o cérebro. A definição precisa do que caracteriza um acuponto e como ele se integra aos sistemas fisiológicos ainda é um campo ativo de pesquisa, inclusive financiado por instituições como os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA.

Segurança da acupuntura

A acupuntura é considerada segura quando realizada por profissionais qualificados. Complicações graves são extremamente raras. Eventos como dor local ou tontura ocorrem com baixa frequência.

Embora os riscos não sejam inexistentes, eles tendem a ser menores do que os associados a muitos analgésicos, especialmente no uso prolongado.

O que os médicos querem que os pacientes saibam

Quando médicos indicam acupuntura para dor crônica ou constipação, isso não ocorre por falta de opções ou como último recurso. A recomendação é feita porque as evidências são convincentes.

A resistência a terapias não ocidentais ainda existe, mas a ciência atual mostra que a acupuntura é muito mais do que placebo e merece ser considerada de forma séria e responsável.

Referência

https://www.washingtonpost.com/wellness/2023/07/24/does-acupuncture-work-chronic-pain/?fbclid=IwAR0yaCnbvc11achnza3rH8wA5AVC5VYrF_tlZUR2J82P_pcO1wnbqR1Dpag

Sobre o artigo

Esse artigo foi escrito por Ana Tanganeli (@anatanganeli), coordenadora do Aprendiz, profissional da Medicina Chinesa e mestranda em Engenharia Biomédica (UFABC) com pesquisa na área de laseracupuntura. Tem mais de 20 anos de experiência em docência e é especialista em epistemologia, didática e tecnologias de ensino. Oferece programa de mentoria, preparatório para provas e diversos cursos de aprimoramento. Tradução e colaboração Beatriz Soter (@drabiasoter).

Quem escreveu: Ana Regina Tanganeli

É professora e coordenadora do Aprendiz de Medicina Chinesa. É profissional da Medicina Chinesa com formação em Acupuntura, Fitoterapia, Dietoterapia, Tuiná e Medicina Chinesa Clássica e especializada em Pediatria. Também é mestranda em Engenharia Biomédica (UFABC) com pesquisa na área de laseracupuntura. Tem mais de 20 anos de experiência em docência e é especialista em epistemologia, didática e tecnologias de ensino. (@anatanganeli)

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