Acupuntura no tratamento da cefaleia tensional crônica

Evidências clínicas sobre eficácia, duração dos efeitos e importância do De Qi

Uma pesquisa publicada em junho de 2022 no Journal of the American Academy of Neurology demonstrou que a acupuntura é eficaz na redução da frequência de crises em pacientes com cefaleia tensional crônica. O estudo mostrou que a acupuntura verdadeira, com obtenção de De Qi, apresentou resultados superiores à acupuntura superficial, com efeitos sustentados por até oito meses após o término do tratamento. Os achados reforçam que não apenas a escolha dos pontos, mas a qualidade do estímulo, é determinante para os resultados clínicos.

A cefaleia tensional é caracterizada por uma sensação de pressão ou aperto bilateral na cabeça, geralmente de intensidade leve a moderada. Ela é classificada como crônica quando ocorre em 15 ou mais dias por mês.

Esse tipo de cefaleia costuma ser mais difícil de tratar, especialmente em sua forma crônica, e os medicamentos utilizados frequentemente estão associados a efeitos colaterais relevantes, além de resposta terapêutica limitada em muitos pacientes.

Objetivo do estudo

O objetivo da pesquisa foi avaliar a eficácia da acupuntura no tratamento específico da cefaleia tensional crônica, distinguindo seus efeitos daqueles observados em episódios agudos ou não crônicos — algo que estudos anteriores não haviam feito de forma clara.

Metodologia

O estudo analisou 218 pacientes com diagnóstico de cefaleia tensional crônica, com duração média da condição de 11 anos e frequência média de 22 crises por mês.

Os participantes foram divididos em dois grupos:

  • Grupo acupuntura real
  • Grupo acupuntura superficial (controle)

Cada paciente recebeu 20 sessões de tratamento, distribuídas ao longo de dois meses.

Acupuntura real

  • Inserção das agulhas a uma profundidade de 12,5 a 20 mm;
  • Estímulo manual com obtenção obrigatória da sensação de De Qi;
  • Sensações relatadas: peso, pressão, distensão ou fisgada.

Acupuntura superficial

  • Utilização dos mesmos pontos corporais;
  • Inserção das agulhas a apenas 2 mm de profundidade;
  • Ausência de manipulação e sem obtenção de De Qi.

Essa comparação permitiu avaliar se os efeitos observados estavam relacionados apenas ao “ato de agulhar” ou à ativação adequada dos pontos.

Resultados

Ao final do acompanhamento, os resultados foram claros:

  • 68% dos pacientes que receberam acupuntura real relataram redução de pelo menos 50% no número de crises mensais;
  • 50% dos pacientes do grupo de acupuntura superficial apresentaram a mesma redução.

Além disso, os benefícios observados no grupo da acupuntura real persistiram por até oito meses após o término do tratamento.

Os resultados foram considerados comparáveis aos obtidos com terapias medicamentosas, porém sem os efeitos colaterais comumente associados aos fármacos.

A importância do De Qi

Um dos pontos centrais do estudo foi a confirmação da importância da obtenção do De Qi para o sucesso terapêutico.

Segundo o pesquisador principal, Dr. Ying Li, a presença do De Qi foi determinante para alcançar os melhores resultados clínicos:

“Para atingir o melhor efeito do tratamento, a sensação de De Qi é importante. Os profissionais devem buscar o seu melhor para alcançar essa sensação em cada ponto de acupuntura.”

Esse achado reforça um princípio clássico da Medicina Chinesa: não basta inserir a agulha no local correto — é necessário ativar o ponto adequadamente.

Implicações clínicas

O estudo evidencia que:

  • Nem toda acupuntura é igual em termos de efeito terapêutico;
  • A profundidade de inserção e a manipulação da agulha influenciam diretamente os resultados;
  • A acupuntura pode atuar como uma alternativa ou complemento relevante no tratamento da cefaleia tensional crônica, especialmente em pacientes refratários a medicamentos.

Especialistas em neurologia ressaltam que o tratamento da dor crônica deve ser multidisciplinar, e a acupuntura se insere como uma das opções com evidência crescente de eficácia.

Segurança e limitações

Os efeitos colaterais relatados no estudo foram leves e não necessitaram de intervenção médica.

Entre as limitações apontadas estão:

  • realização do estudo em um único centro na China;
  • necessidade de mais pesquisas para compreender os mecanismos neurofisiológicos envolvidos;
  • avaliação de custo-benefício em diferentes contextos de saúde.

Ainda assim, os autores destacam que estudos realizados em outros países têm demonstrado resultados semelhantes, sugerindo boa possibilidade de generalização.

Considerações finais

A pesquisa reforça que a acupuntura é mais do que um efeito placebo no tratamento da cefaleia tensional crônica. Quando realizada com técnica adequada, profundidade correta e obtenção do De Qi, ela pode reduzir significativamente a frequência das crises e promover alívio duradouro da dor.

Trata-se de uma ferramenta terapêutica que exige formação sólida, sensibilidade clínica e respeito aos princípios clássicos da acupuntura.

Referência

Li Y et al. Acupuncture for chronic tension-type headache. Journal of the American Academy of Neurology, 2022.

Divulgação jornalística: Rachel Fadem, CNN, 29 jun. 2022.

Artigo original: https://edition.cnn.com/2022/06/29/health/acupuncture-chronic-tension-headaches-relief-wellness/index.html

Sobre o artigo

Esse artigo foi escrito por Ana Tanganeli (@anatanganeli), coordenadora do Aprendiz, profissional da Medicina Chinesa e mestranda em Engenharia Biomédica (UFABC) com pesquisa na área de laseracupuntura. Tem mais de 20 anos de experiência em docência e é especialista em epistemologia, didática e tecnologias de ensino. Oferece programa de mentoria, preparatório para provas e diversos cursos de aprimoramento.

Quem escreveu: Ana Regina Tanganeli

É professora e coordenadora do Aprendiz de Medicina Chinesa. É profissional da Medicina Chinesa com formação em Acupuntura, Fitoterapia, Dietoterapia, Tuiná e Medicina Chinesa Clássica e especializada em Pediatria. Também é mestranda em Engenharia Biomédica (UFABC) com pesquisa na área de laseracupuntura. Tem mais de 20 anos de experiência em docência e é especialista em epistemologia, didática e tecnologias de ensino. (@anatanganeli)

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