Acupuntura punho-tornozelo no herpes zoster: quando a ciência começa a cuidar da dor com mais critério

Um estudo clínico recente mostra que integrar acupuntura ao tratamento convencional pode aliviar a dor aguda mais rapidamente — sem aumentar riscos

Um ensaio clínico randomizado publicado em 2025 avaliou a associação da acupuntura punho-tornozelo ao tratamento farmacológico padrão em pacientes com herpes zoster na fase aguda. Os resultados mostraram uma maior taxa de desaparecimento completo da dor após 7 dias, além de melhora na qualidade de vida, sem aumento de efeitos adversos. Este artigo propõe uma leitura crítica e clínica dos achados, refletindo sobre o papel da integração terapêutica no cuidado da dor aguda.

Quando falamos em herpes zoster, a atenção costuma se concentrar nas lesões de pele. No entanto, para quem acompanha pacientes de perto, o impacto mais marcante da doença quase sempre é outro: a dor.

Queimação intensa, sensação de facada, hipersensibilidade ao toque e desconforto persistente fazem parte da experiência de muitos pacientes, especialmente na fase aguda. Os antivirais são fundamentais para controlar a replicação viral, mas nem sempre conseguem oferecer alívio satisfatório da dor.

Por isso, analgésicos costumam ser associados ao tratamento — ainda que isso aumente o risco de efeitos adversos, como a nefrotoxicidade.

É nesse contexto que um estudo clínico publicado em 2025 chama a atenção, não por prometer soluções milagrosas, mas por fazer uma pergunta mais madura:

o que acontece quando ampliamos o cuidado da dor, sem abrir mão do tratamento convencional?

O que o estudo investigou

O ensaio clínico foi realizado no Hospital Central de Mianyang e envolveu 106 pacientes internados com herpes zoster na fase aguda. Todos receberam tratamento farmacológico padrão com antivirais e analgésicos. Metade deles, além disso, recebeu acupuntura punho-tornozelo diariamente por sete dias.

A acupuntura punho-tornozelo é uma técnica desenvolvida na década de 1970, caracterizada pelo agulhamento superficial em áreas específicas dos punhos e tornozelos. Trata-se de uma abordagem simples, segura e de fácil aplicação, especialmente utilizada para quadros dolorosos e dermatológicos.

A dor foi avaliada por meio da escala visual analógica (VAS) nos primeiros sete dias e novamente após 28 dias. Também foi analisado o impacto da dor na qualidade de vida dos pacientes, utilizando o Índice de Qualidade de Vida em Dermatologia (DLQI).

O que os resultados mostram — e o que eles não mostram

O dado mais relevante do estudo não foi uma redução absoluta da dor em todos os momentos, mas algo clinicamente muito significativo:

No sétimo dia de tratamento, a taxa de ausência completa de dor foi significativamente maior no grupo que recebeu acupuntura, quando comparada ao grupo controle (87,04% versus 65,38%).

Além disso, os pacientes do grupo experimental apresentaram melhor qualidade de vida na alta hospitalar, sem aumento de efeitos colaterais.

É importante destacar que, após 28 dias, as diferenças entre os grupos diminuíram — possivelmente porque a acupuntura foi aplicada apenas durante a primeira semana. Isso reforça uma leitura cuidadosa do estudo: o benefício parece estar especialmente relacionado ao manejo da dor na fase aguda, e não necessariamente à prevenção de dor crônica.

Uma leitura profunda

Do ponto de vista do Aprendiz, o valor deste estudo não está em provar que a acupuntura “funciona” de forma genérica, mas em mostrar como ela pode ser integrada com critério, segurança e timing adequado.

Não se trata de substituir antivirais ou analgésicos. Trata-se de reconhecer que o cuidado da dor pode — e talvez deva — ser ampliado, especialmente quando os recursos farmacológicos não oferecem alívio suficiente ou trazem custos biológicos relevantes.

Esse tipo de evidência aponta para um caminho cada vez mais necessário na prática clínica: uma medicina que não compete, mas que integra abordagens quando há benefício real, mensurável e seguro para o paciente.

Mais do que responder perguntas definitivas, este estudo abre espaço para uma reflexão importante:

como podemos cuidar melhor da dor, sem aumentar o peso do tratamento sobre o organismo?

Às vezes, é assim que a ciência avança — não com respostas finais, mas com perguntas melhores.

Referência

Pu J, Li D, Luo X, Wang J, Li Y, et al. (2025) Wrist-ankle acupuncture alleviates pain in the acute phase of herpes zoster: A randomized controlled trial. PLOS ONE 20(5): e0318386. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0318386.

Sobre o artigo

Esse artigo foi escrito por Ana Tanganeli (@anatanganeli), coordenadora do Aprendiz, profissional da Medicina Chinesa e mestranda em Engenharia Biomédica (UFABC) com pesquisa na área de laseracupuntura. Tem mais de 20 anos de experiência em docência e é especialista em epistemologia, didática e tecnologias de ensino. Oferece programa de mentoria, preparatório para provas e diversos cursos de aprimoramento.

Quem escreveu: Ana Regina Tanganeli

É professora e coordenadora do Aprendiz de Medicina Chinesa. É profissional da Medicina Chinesa com formação em Acupuntura, Fitoterapia, Dietoterapia, Tuiná e Medicina Chinesa Clássica e especializada em Pediatria. Também é mestranda em Engenharia Biomédica (UFABC) com pesquisa na área de laseracupuntura. Tem mais de 20 anos de experiência em docência e é especialista em epistemologia, didática e tecnologias de ensino. (@anatanganeli)

Um comentário

  1. Marcia 4 de junho de 2025 at 15:50 - Reply

    Muito interessante Ana, como comentei casos de herpes zoster tem aumentado muito após COVID, vamos poder ajudar muitas pessoas.
    Muito obrigada Ana

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