Gota na Medicina Chinesa: síndromes, inflamação e correlações com marcadores biológicos

Uma leitura integrativa entre Medicina Chinesa e evidências clínicas contemporâneas

A gota é uma doença metabólica e inflamatória caracterizada pela deposição de cristais de urato monossódico nas articulações, com repercussões sistêmicas importantes. Na Medicina Chinesa, a condição é classificada como uma Síndrome Bi, relacionada à estagnação de Qi, presença de umidade e estase de Sangue. Um estudo transversal realizado na China com 1.658 pacientes correlacionou síndromes da Medicina Chinesa com marcadores biológicos modernos, demonstrando padrões distintos de inflamação, função renal e metabolismo em cada síndrome. Este artigo apresenta uma análise integrada desses achados.

A gota é uma doença metabólica e inflamatória caracterizada pela precipitação e deposição de cristais de urato monossódico nas articulações e outros tecidos. Esse processo ocorre devido a falhas no metabolismo das purinas e/ou à redução da excreção de ácido úrico no Sangue.

A condição está associada a níveis elevados de ácido úrico, que levam a danos articulares, inflamação crônica, formação de tofos (nódulos duros e visíveis) e a mecanismos patológicos relacionados a doenças cardiovasculares, diabetes, doenças renais e síndrome metabólica.

Dessa forma, a gota não apenas compromete a qualidade de vida do paciente, como também gera repercussões sistêmicas relevantes.

Estima-se que cerca de 3,9% da população mundial seja afetada anualmente, com maior prevalência em homens e aumento progressivo da incidência com a idade. Entre os fatores associados estão predisposição genética, estilo de vida e alterações metabólicas.

A gota sob a perspectiva da Medicina Chinesa

Na Medicina Chinesa, a gota é categorizada como uma Síndrome Bi, cujo mecanismo patológico está relacionado à estagnação de Qi nos canais, à invasão de umidade externa ou à formação de umidade interna.

De acordo com a obra Tratado de Problemas no Sangue, as funções de transformação e transporte do Baço têm relação direta com o mecanismo patológico da gota.

De forma geral, ocorre um acúmulo de umidade e estase de Sangue nos canais, resultando em edema articular, dor e acúmulo de ácido úrico no Sangue.

O estudo clínico

Para compreender a relação entre a gota, as síndromes da Medicina Chinesa e marcadores biológicos modernos, foi realizado um estudo transversal com 1.658 pacientes, atendidos no 1º Hospital Afiliado de Chengdu (China), entre 2019 e 2022.

O diagnóstico em Medicina Chinesa foi realizado com base em:

  • Os 4 pilares do diagnóstico (interrogatório, inspeção, palpação, ausculta e olfação)
  • Os 8 princípios
  • A diferenciação por órgãos e vísceras

A partir dessa avaliação, foram identificadas quatro síndromes principais.

Síndromes identificadas e suas características

Umidade-calor (571 casos)

Caracterizada por:

  • Eritema (vermelhidão)
  • Transpiração profusa
  • Sensação de calor
  • Saburra amarela e pegajosa
  • Pulso rápido e escorregadio

Mucosidade e estase de Sangue (572 casos)

Caracterizada por:

  • Deformidades articulares
  • Língua arroxeada com petéquias arroxeadas
  • Pulso escorregadio ou áspero

Deficiência de Baço gerando umidade (339 casos)

Caracterizada por:

  • Fadiga
  • Fezes amolecidas
  • Língua pálida com marcas de dentes
  • Pulso fraco

Deficiência de Qi e Sangue (176 casos)

Caracterizada por:

  • Palidez
  • Tontura
  • Saburra fina
  • Pulso fraco e fino

Correlação com marcadores biológicos

Após a diferenciação sindrômica, foram realizadas correlações entre os padrões da Medicina Chinesa e marcadores biológicos da Medicina Ocidental. Os resultados demonstraram perfis distintos para cada síndrome.

Deficiência de Baço

As principais alterações ocorreram nos índices de:

  • Ácido úrico
  • Concentração média de hemoglobina corpuscular

Deficiência de Qi e Sangue

Foram observadas alterações em:

  • Homocisteína
  • Cistatina C
  • Albumina
  • Contagem de células vermelhas

Umidade-calor

Apresentou alterações em:

  • Homocisteína
  • Ácido úrico
  • Proteína total
  • Percentual de linfócitos

Mucosidade e estase de Sangue

Foi o padrão com maior número de alterações, incluindo:

  • Homocisteína
  • Albumina
  • Hemoglobina
  • Percentual de linfócitos
  • Concentração média de hemoglobina corpuscular
  • Nitrogênio da ureia do Sangue
  • Ácido úrico
  • Cistatina C

Inflamação, ácido úrico e dano sistêmico

Com exceção da síndrome de deficiência de Baço, todas as síndromes apresentaram níveis significativamente elevados de ácido úrico, especialmente o padrão de umidade-calor.

Isso indica que os distúrbios do metabolismo do ácido úrico se manifestam, prioritariamente, por sinais e sintomas associados à umidade-calor.

Os cristais de urato monossódico atuam como potentes indutores inflamatórios, promovendo a maturação e liberação de IL-1β, uma citocina responsável por intensa resposta inflamatória nas articulações e tecidos.

A persistência desse mecanismo leva à inflamação crônica, danos sistêmicos progressivos e agravamento da condição.

Homocisteína, Rim e canais

A homocisteína é um aminoácido fundamental no metabolismo da metionina. Níveis elevados estão associados ao desenvolvimento de doença renal crônica.

Esse marcador esteve elevado em todas as síndromes, exceto na deficiência de Baço.

Sob a ótica da Medicina Chinesa, esse achado pode ser compreendido como consequência da insuficiência das funções de Rim e Fígado, causada pela obstrução da circulação de Qi e Sangue nos canais correspondentes, associada à presença de umidade e estase — uma patologia de canal que afeta diretamente o órgão.

Baço, metabolismo lipídico e obesidade

Sabe-se que cerca de 60% dos pacientes com hiperuricemia apresentam obesidade ou sobrepeso, condição intimamente relacionada ao metabolismo lipídico.

Na Medicina Chinesa, esse metabolismo está diretamente ligado às funções do Baço. De fato, as maiores alterações metabólicas foram encontradas nos pacientes com esse padrão sindrômico.

Nesse contexto, o tratamento principal — além do manejo da crise aguda — deve ser direcionado ao fortalecimento do Qi do Baço e à restauração de suas funções, o que inclui acupuntura, fitoterapia e, de forma indispensável, a correção dos hábitos alimentares (dietoterapia).

Idade e evolução da doença

O estudo demonstrou que as síndromes de umidade-calor e deficiência de Baço não apresentaram relação direta com a idade.

Já o padrão de mucosidade e estase de Sangue foi significativamente mais frequente em pacientes mais idosos (média de 62 anos, contra 56 anos nas demais síndromes).

Esse achado é explicado pelo declínio fisiológico da Essência ao longo da vida, que reduz as funções fisiológicas, favorece a formação de mucosidade, a estase de Sangue e, consequentemente, a cronicidade da gota.

Fase aguda e cronicidade

Na fase aguda da gota, as síndromes com maior probabilidade de desencadeamento são:

  • Deficiência de Baço
  • Umidade-calor

Na deficiência de Qi e Sangue, a probabilidade é menor.

No padrão de mucosidade e estase de Sangue, a condição já se apresenta como crônica.

Considerações finais

Os autores sugerem a realização de novos estudos, especialmente prospectivos e multicêntricos, para aprofundar a compreensão das síndromes associadas à gota, aprimorar estratégias diagnósticas, correlacionar marcadores biológicos aos mecanismos patológicos e desenvolver modelos preditivos capazes de evitar o surgimento da fase aguda — extremamente dolorosa para o paciente.

Referência

Xu D, Jiang J, Chen T, Wang J, Feng L, Chen W, Dang W. Analysis of Clinical Characteristics and Predictive Factors in Patients with Gout Caused by Different Traditional Chinese Medicine Syndromes: A Cross-Sectional Study. European Journal of Integrative Medicine. 2025;102491. https://doi.org/10.1016/j.eujim.2025.102491

Resumo Gráfico

Síndromes relacionadas com a Gota na visão da Medicina Chinesa

Sobre o artigo

Esse artigo foi escrito por Ana Tanganeli (@anatanganeli), coordenadora do Aprendiz, profissional da Medicina Chinesa e mestranda em Engenharia Biomédica (UFABC) com pesquisa na área de laseracupuntura. Tem mais de 20 anos de experiência em docência e é especialista em epistemologia, didática e tecnologias de ensino. Oferece programa de mentoria, preparatório para provas e diversos cursos de aprimoramento.

Quem escreveu: Ana Regina Tanganeli

É professora e coordenadora do Aprendiz de Medicina Chinesa. É profissional da Medicina Chinesa com formação em Acupuntura, Fitoterapia, Dietoterapia, Tuiná e Medicina Chinesa Clássica e especializada em Pediatria. Também é mestranda em Engenharia Biomédica (UFABC) com pesquisa na área de laseracupuntura. Tem mais de 20 anos de experiência em docência e é especialista em epistemologia, didática e tecnologias de ensino. (@anatanganeli)

2 comentários

  1. Nelis 14 de maio de 2025 at 10:56 - Reply

    Show Professora Ana!! Muito completo didático e embasado em estudos cientificos, o que a diferencía da maioria dos profissionais e professores de MC. Muito interessante essa abordagem sindrômica para um tratamento realmente efetivo.

  2. Elaine 14 de maio de 2025 at 18:37 - Reply

    Excelente artigo, visão ocidental e chinesa em benefício do paciente.

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