Eletroacupuntura e função cognitiva na depressão

Evidências clínicas sobre cognição, qualidade de vida e severidade dos sintomas

A depressão maior é uma condição altamente prevalente e incapacitante, frequentemente associada a prejuízos cognitivos persistentes mesmo após a melhora do humor. Este artigo apresenta e discute um estudo clínico randomizado conduzido pela Universidade de Thammasat (Tailândia), que investigou os efeitos da eletroacupuntura associada ao tratamento convencional sobre a função cognitiva, qualidade de vida e gravidade dos sintomas em pacientes com transtorno depressivo maior.

Estima-se que cerca de 264 milhões de pessoas em todo o mundo sofram de transtorno depressivo maior. A condição está associada a aproximadamente 800.000 suicídios por ano, sendo a segunda principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.

Além dos sintomas emocionais, muitos pacientes apresentam disfunções cognitivas, que podem persistir durante a doença ou mesmo após a remissão do quadro depressivo. Entre as alterações mais comuns estão:

  • Déficit de atenção;
  • Redução da memória;
  • Lentificação do pensamento;
  • Dificuldade em funções executivas, como planejamento e coordenação motora fina.

Do ponto de vista ocidental, essas alterações são tratadas principalmente com medicamentos como duloxetina (associada à melhora da função cognitiva) e vortioxetina (relacionada à melhora das funções executivas, atenção, velocidade de processamento, aprendizado e memória). Como terapias complementares, utilizam-se ainda a estimulação magnética transcraniana e a terapia eletroconvulsiva (ECT).

A acupuntura como terapia complementar

A acupuntura tem ganhado destaque por sua efetividade clínica e por apresentar baixo risco de efeitos adversos. Diversos estudos apontam melhora significativa tanto dos sintomas depressivos quanto das funções cognitivas associadas.

Na visão ocidental, a acupuntura estimula a liberação do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), essencial para a plasticidade neural e formação de novos neurônios;

No caso da eletroacupuntura, há estímulo adicional do fator de crescimento do endotélio vascular (VEGF), favorecendo a dilatação dos vasos cerebrais e a melhora do fluxo sanguíneo no cérebro.

Desenho do estudo

O estudo foi conduzido pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade de Thammasat (Tailândia) e incluiu 60 pacientes, com idade entre 18 e 55 anos, diagnosticados com transtorno depressivo maior.

Os critérios de inclusão consideraram:

  • Baixo risco de suicídio;
  • Tratamento convencional em andamento por pelo menos 3 meses.

Os participantes foram divididos de forma aleatória em dois grupos:

  • Grupo controle: tratamento convencional associado à acupuntura falsa;
  • Grupo intervenção: tratamento convencional associado à eletroacupuntura.

Tratamento convencional

O tratamento convencional seguiu prescrição individualizada, incluindo:

  • Benzodiazepínicos;
  • Antidepressivos tricíclicos;
  • Antipsicóticos, conforme indicação clínica e dosagem individual.

Acupuntura falsa (grupo controle)

No grupo controle, a acupuntura falsa consistiu em:

  • Agulhamento bilateral de IG4 (Hegu);
  • Profundidade superficial de 1,3 mm;
  • Ausência de estímulo manual;
  • Aplicação apenas na primeira e na última semana do estudo.

Eletroacupuntura (grupo intervenção)

No grupo de intervenção, os pacientes receberam acupuntura uma vez por semana, durante 10 semanas, nos seguintes pontos:

  • VG20 (Baihui);
  • Sishencong (Ex-HN-1);
  • Três agulhas da inteligência:
  • VG24 (Shenting);
  • VB13 (Wangu);
  • E8 (Touwei);
  • F3 (Taichong);
  • P9 (Taiyuan);
  • R3 (Taixi);
  • E36 (Zusanli);
  • PC6 (Neiguan).

Todos os pontos foram agulhados na profundidade adequada, com estímulo até a obtenção do De Qi e retenção de 20 minutos.

A eletroacupuntura foi aplicada nos pontos:

  • VB13 (Wangu);
  • E8 (Touwei);

com os seguintes parâmetros:

  • 9 VDC;
  • 50 Hz;
  • Corrente inferior a 1 mA.

Avaliação dos resultados

Os resultados foram avaliados por meio de:

  • Questionários padronizados;
  • Avaliações clínicas realizadas por profissionais especializados;
  • Medidas objetivas e subjetivas das funções cognitivas e dos sintomas depressivos.

As avaliações foram realizadas antes e após as 10 semanas de tratamento, por um avaliador cego (sem conhecimento do grupo ao qual o paciente pertencia).

Resultados

A análise estatística demonstrou que o grupo que recebeu eletroacupuntura associada ao tratamento convencional apresentou resultados superiores em relação ao grupo controle, especialmente em:

  • Concentração;
  • Velocidade do pensamento;
  • Análise lógico-matemática;
  • Aprendizado e compreensão;
  • Interação social;
  • Redução da ansiedade;
  • Aumento da capacidade de realizar atividades da vida diária.

Conclusão do estudo

O estudo concluiu que a eletroacupuntura associada ao tratamento convencional é estatisticamente superior à acupuntura falsa no tratamento dos sintomas cognitivos da depressão maior, além de promover melhora funcional e na qualidade de vida dos pacientes.

Os pesquisadores destacaram ainda a necessidade de novos estudos para avaliar:

  • O impacto da frequência de aplicação da acupuntura, uma vez que outros trabalhos obtiveram resultados mais expressivos com aplicações em dias alternados;
  • A replicação dos resultados em amostras maiores, já que este estudo foi realizado durante a pandemia de COVID-19, o que limitou o número de participantes e a frequência das sessões.

Referência

Boontra Y, Thanetnit C, Phanasathit M. Effects of electroacupuncture on cognitive symptoms in major depressive disorder: a pilot study and randomized controlled trial. F1000Research. https://doi.org/10.12688/f1000research.146897.3

Sobre o artigo

Esse artigo foi escrito por Ana Tanganeli (@anatanganeli), coordenadora do Aprendiz, profissional da Medicina Chinesa e mestranda em Engenharia Biomédica (UFABC) com pesquisa na área de laseracupuntura. Tem mais de 20 anos de experiência em docência e é especialista em epistemologia, didática e tecnologias de ensino. Oferece programa de mentoria, preparatório para provas e diversos cursos de aprimoramento.

Quem escreveu: Ana Regina Tanganeli

É professora e coordenadora do Aprendiz de Medicina Chinesa. É profissional da Medicina Chinesa com formação em Acupuntura, Fitoterapia, Dietoterapia, Tuiná e Medicina Chinesa Clássica e especializada em Pediatria. Também é mestranda em Engenharia Biomédica (UFABC) com pesquisa na área de laseracupuntura. Tem mais de 20 anos de experiência em docência e é especialista em epistemologia, didática e tecnologias de ensino. (@anatanganeli)

3 comentários

  1. Sandra Bomtempo Braga 27 de setembro de 2024 at 08:15 - Reply

    Sempre antenada no que está acontecendo no meio científico e de pesquisas sérias. Obrigada por nós atualizar sempre.

  2. Rubens Fernando Silvia Sene 1 de outubro de 2024 at 08:38 - Reply

    Deus abençoe imensamente Profa Ana Tangarele pelo seu conhecimento, carinho e dedicação aos seus alunos, que tem nos proporcionando aprender, atualizar e colocar em prática essa ciência milenar a MTC e a Acupuntura, buscando a prevenção, a cura, o equilíbrio e a qualidade de vida e melhores perspectivas em saúde física, emocional e mental, tornando nossa vida mais feliz e saudável. Gratidão. Deus abençoe!

    Rubens FSSene
    Farm Bioquímico Homeopata Fitoterapeuta Acupunturista Naturopata

  3. Mariangela Scordamaglio Prezotto 1 de outubro de 2024 at 09:34 - Reply

    Como é gratificante, estudar com quem sabe. Obrigada profa Ana por seus esforços em trazer nos o que há de mais atual na MTC.

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